O estudo foi realizado pela Associação Civil Chicos.net com o apoio da Disney no Brasil, Argentina e México e mostra uma tendência dos pais brasileiros agirem como “guarda-costas” e “controladores”.

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Em pesquisa para traçar o comportamento de pais em relação ao uso da internet pelos filhos de 4 a 12 anos, foram identificados quatro perfis preponderantes de pais: os guarda-costas, os controladores, os semeadores e os espiões. Foi possível traçar, em linhas gerais, diferentes atitudes e características paternas que não costumam se apresentar de forma pura, mas ajudam a segmentar comportamentos predominantes.

De acordo com a presidente da Chicos.net, Marcela Czarny, como os dispositivos tecnológicos passaram a fazer parte da vida cotidiana das crianças, tornou-se fundamental entender o papel dos pais no uso seguro da Internet para aproveitar seus benefícios e minimizar seus riscos. “Neste sentido, é preciso dispor de dados sobre a atuação dos pais e mães frente ao uso da Internet em suas casas, como percebem o vínculo de seus filhos com a tecnologia e como ela afeta as crianças em seu desenvolvimento como pessoas”, acrescenta.

Desenvolvido em três etapas de junho a novembro de 2014, o estudo foi aplicado pela consultoria Trendsity para embasar as iniciativas da Associação Civil Chicos.net, sediadas em Buenos Aires, e da Disney em relação à Cidadania Digital. Na fase quantitativa foram entrevistadas 1200 pessoas via o on-line, 400 em cada país participante: Brasil, Argentina e México.

Os “guarda-costas” gostam de ser considerados amigos de seus filhos e tentam controlar de maneira discreta, sem pressionar abertamente, mais por medo de gerar atritos do que pela intenção de não incomodar. Na verdade, é difícil impor uma autoridade e colocar limites em função da relação de amizade que tentam construir por se sentirem mais confortáveis. A lógica subjacente a este discurso é acreditar que evitar dizer não é uma maneira de mostrar carinho. As permissões acabam dependendo do humor ou da agenda dos adultos (especialmente entre os pais já experientes, cuja rotina é mais complexa conforme a quantidade de filhos). Isso não ajuda a fixar e interiorizar normas estáveis, razoáveis e previsíveis. O mais arriscado em não dizer NÃO é que os filhos também podem não desenvolver essa capacidade ao receber pedidos insensatos ou perigosos de estranhos, tanto nas experiências on-line como off-line. Brasil e Argentina apresentam uma tendência clara para este tipo de pais, com 33% e 37%, já no México cai para segundo lugar, de acordo com as ocorrências.

Os “controladores” são aqueles pais que reconhecem seus medos, são superprotetores e assumem que as crianças são inocentes, ingênuas e, por isso, vulneráveis. Assim, acreditam que devem controlar cada passo dos filhos em seus dispositivos, muitas vezes, inibindo-os. Este perfil pode ser um obstáculo no desenvolvimento da autoestima e dos mecanismos internos de autopreservação dos filhos, tanto na vida real (off-line) como no mundo virtual (on-line). No Brasil, apesar de o perfil com maior adesão ser o guarda-costas (33%), o controlador também tem força, com 30%. Já na Argentina e no México este número representa 14% e 16%, respectivamente.

Os “semeadores” admitem e assumem que existe um desajuste normal entre as gerações, o que não supõe uma renúncia ao papel de adulto. Eles não pretendem ser cúmplices e nem amigos de seus filhos, mas sim estar presentes quando for necessário. Uma das principais características do semeador é a paciência. Desde muito cedo eles procuram semear em vez de reagir e arrancar a erva daninha. Entendem que, se as coisas vão bem, o discurso gera uma voz protetora interior na consciência dos filhos. Respeitam a privacidade, o que não implica o desligamento do estado emocional de seus filhos. Ao contrário, significa ter lucidez ao ler os sinais de alerta e ameaças ao redor e intervir de maneira oportuna e adequada, com sensibilidade e empatia.

Embora não pretenda saber mais sobre tecnologia que os filhos, o semeador estabelece uma relação amistosa com os dispositivos. Quando entende que é necessário limitar o uso, não o faz como um castigo nem sob ameaça – oferece uma alternativa. Os dados quantitativos são, neste sentido, animadores: para que os filhos se desconectem, os pais propõem atividades ao ar livre que envolvam as crianças. O destaque vai para os pais argentinos e mexicanos, com menor relevância entre brasileiros (Argentina: 53%; Brasil: 17% e México: 47%). Com uma intensidade um pouco menor, são propostas outras atividades como maneira de dissuadi-los: artes, desenho e música (Argentina: 51%; Brasil: 30% e México: 42%). Fazer uma atividade em conjunto (pais e filhos) é um elemento mencionado por 42% na Argentina, 43% no Brasil e 39% no México.

Os filhos e filhas do pai semeador mantêm com eles um laço de confiança e tendem a contar as coisas que incomodam ou preocupam, on-line e off-line, o que aumenta a capacidade de autopreservação da criança. O México é o local com concentração mais clara desse perfil, com 45% de adesão no México, 31% na Argentina e 22% no Brasil.

Os “pais espiões” são mais autoritários e restritivos, pouco abertos ao diálogo e ao debate, além de não hesitarem em violar a intimidade dos filhos, amparados no discurso “faço pelo seu bem”. O estudo quantitativo aponta que cerca de 1 entre 10 pais não estabelecem regras explícitas para os filhos, porém revisam o histórico ou os chats salvos.

Mais do que espionar, usam a informação para reforçar a Intimidação. Segundo uma organização de pais e mães sediada na Colômbia, a Red Papaz, entre as consequências deste estilo autoritário está a formação de filhos medrosos, retraídos e ansiosos ou que aprendem que a melhor maneira de conseguir o que querem é se impondo e/ou agredindo os outros. Estabelece-se um círculo vicioso de baixa confiança que conduz a um risco maior: quanto maior a repressão, maior o medo do castigo, o que leva os filhos a provavelmente esconderem mais coisas. Além disso, podem se tornar adultos sem noção de privacidade.

O perfil não apresenta declaradamente uma adesão majoritária, provavelmente porque não é conveniente se reconhecer em suas características: Argentina (18%), Brasil e México (15%). Os resultados deste estudo podem auxiliar na orientação dos pais em relação a como se comportam as crianças na Internet, e fomentar a discussão sobre a melhor maneira de abordar o tema em casa – assunto que será destaque em virtude do Dia Internacional da Internet Segura.

Para acessar a pesquisa completa: http://www.tecnologiasi.org.ar/chicosytecnologia_br.pdf