por Luiz Gaziri – Você está navegando no Facebook e logo percebe quantos amigos seus usam a palavra “gratidão” em seus posts. Certamente, você também percebe que tudo o que eles menos querem é prestar gratidão, mas sim, mostrar para seus conhecidos que estão jantando num restaurante chique, que compraram um carro novo ou que estão viajando para o exterior.

Mas quais são os objetivos das pessoas que usam o termo “gratidão” de forma distorcida? Como eu sou fascinado por comportamento humano, decidi buscar na ciência o que causou esta onda. Demorou mais do que eu pensei – acabei investindo três anos nesta jornada, li milhares de artigos científicos, troquei centenas de e-mails com pesquisadores nas mais prestigiadas universidades do mundo e finalmente, fui até os EUA para conversar com cientistas em instituições como Harvard, Stanford, NYU e muitas outras. O que eu descobri acabou se tornando um livro, chamado Escolhas Felizes, e finalmente, acredito que tenho algumas respostas para o enigma da gratidão.

Minha primeira descoberta foi a de que muitas pessoas usam a “gratidão” nas redes sociais para sinalizar para seus amigos o quanto estão “bem de vida”. Mostrar uma posição elevada na sociedade gera um sentimento de competência, uma necessidade motivacional básica do ser humano, porém, quando esta necessidade é usada de forma errada a consequência é um aumento nas comparações sociais. Estas comparações podem se tornar um problema pois a ciência mostra que nós sempre nos comparamos com pessoas que tem mais do que a gente. Assim, entramos numa corrida onde nunca sairemos vencedores. Não por acaso, uma pesquisa da Harvard mostrou que a maioria dos milionários não são satisfeitos com suas vidas, pois os mesmos sempre usam como base de comparação os que tem mais – algo cada vez mais fácil dentro das mídias sociais.

Outra consequência negativa de usar a “gratidão” para sinalizar competência através de bens materiais e riquezas é o fato de que o ser humano se adapta facilmente com mais dinheiro e mais bens-materiais, fenômeno conhecido como Adaptação Hedônica. Seus níveis de felicidade certamente aumentam quando você recebe um aumento, porém, alguns meses depois você se acostuma com o seu aumento e ele passa a ser apenas o seu salário. E este fenômeno acontece também com a segunda razão pela qual a “gratidão” é utilizada: o reconhecimento.

É comum ouvirmos hoje em dia que o fator que verdadeiramente motiva as pessoas é o reconhecimento, porém, esta crença nos leva a um caminho perigoso. Ser reconhecido faz com que áreas de prazer no nosso cérebro tornem-se ativas, o que gera uma felicidade momentânea, no entanto, como a tendência humana é buscar novamente por momentos de prazer, acabamos nos tornando viciados pelo reconhecimento. Com o passar do tempo, você é fisgado pela Adaptação Hedônica – não importa a quantidade de reconhecimentos que receba, você sempre irá querer mais. Quando buscamos incansavelmente pelo reconhecimento dos outros, seja no ambiente de trabalho ou nas redes sociais, colocamos a nossa motivação e felicidade num destino que foge do nosso controle. É por isso que muitos estudos científicos comprovam que o verdadeiro poder do reconhecimento acontece quando você assume o controle dele, ou seja, quando é você quem passa a reconhecer aos outros.

Gratidão nada mais é do que mostrar a sua apreciação a alguém que te ajudou em algum momento da vida, gratidão é reconhecer aos outros – não postar uma foto sua comendo lagosta em Berverly Hills. O renomado cientista Martin Seligman fez um estudo onde seis intervenções diferentes foram realizadas com o intuito de aumentar a felicidade dos participantes. Entre elas, a que trouxe maior felicidade futura foi escrever uma carta de gratidão e a entregar pessoalmente para alguém que as ajudou no passado. Obviamente, enviar uma carta de gratidão por e-mail ou marcar alguém no Facebook para expressar sua gratidão são atividades válidas, porém, os benefícios máximos da gratidão acontecem pessoalmente. Muitos cientistas concordam com o fato de que as interações pessoais são a principal fonte de felicidade para as pessoas, portanto, se você quer levar a gratidão e o reconhecimento à sério, reconheça que as pessoas em sua volta existem. Largue o seu celular, converse, seja grato e reconheça a sua esposa, colega de trabalho, amigo, pai, porteiro do prédio, caixa de supermercado e frentista do posto.

Porém, ser grato é apenas a metade do caminho. O poder da gratidão é exponencialmente maior quando você inicia o ciclo da gratidão, ajudando aos outros. As pessoas precisam ser ajudadas para, posteriormente, terem a quem ser gratas, não é mesmo? Muitos estudos científicos comprovam que quando ajudamos aos outros, ficamos mais felizes e motivados do que quando somos ajudados. Visitar um cliente com o seu colega de trabalho para o auxiliar a fechar um negócio, carregar algo pesado para alguém ou dar a sua vez no elevador são ações simples que podem aumentar de forma significativa a sua felicidade e motivação.

Quando você pratica a gratidão verdadeira, a expressando pessoalmente, reconhecendo aos outros e ajudando as pessoas, você se livra de comportamentos perigosos e assume as rédeas do seu próprio sucesso. Apesar da onda de “gratidão” nas mídias sociais, a ciência mostra que a gratidão autêntica acontece off-line. Que tal começar hoje mesmo a praticá-la?

Luiz Gaziri é escritor, palestrante, consultor e professor da FAE Business School, PUC-PR e ISAE/FGV.